Entrevista concecida ao site da Editora SM de S. Paulo.

Também pode ser lido do endereço abaixo:

www.edicoessm.com.br/ver_noticia.aspx?id=8615

fotopaulobedaqueProfessor de Ensino Médio e universitário, mestre na área de Educação a Distância, Paulo Bedaque é um dos principais autores de livros didáticos na área de Física, Computação e Ciências. Sua última coleção, editada pela Livraria Saraiva, vendeu 8 milhões de livros.
Em 2005, Bedaque estreou como colaborador de Edições SM, como um dos consultores da coleção Mão na Ciência, série de informativos originalmente produzidos pela associação francesa Lês Petits Debrouillards, que apresenta, de forma lúdica, diversos princípios científicos para crianças e adolescentes.
Para o autor, a chegada da Coleção é muito oportuna. “Li a coleção antes que saísse no Brasil e passei a ser um defensor de sua tradução”, diz. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista concedida por Bedaque ao site de Edições Sm.

Edições SM – Por que o cidadão médio do século XXI deve saber Ciências?

Paulo Bedaque - Nossas vidas estão moldadas pelos avanços científicos e tecnológicos, com algumas conseqüências desejáveis e outras indesejáveis. A inclusão no mundo atual exige que se saiba pensar cientificamente, o que implica em adquirir esta habilidade ao longo de todo o nosso aprendizado, que deve durar por toda a vida. Em especial, não se pode aceitar hoje em dia que um indivíduo deixe a escola sem pensar o mundo natural sob a perspectiva da ciência, sem o letramento que o capacite a tomar decisões lógicas e baseadas em verdades científicas. Evidentemente, a escola, como o verdadeiro templo da educação formal, deve saber rezar bem este terço, ou seja, deve tomar para si esta tarefa, ainda que não seja exclusivamente sua, e garantir o desenvolvimento desta habilidade para seus alunos.

Edições SM – Quais são os principais problemas verificados no ensino de ciências no Ensino Fundamental e Médio? Essa questão é colocada também em outros países do mundo?

Paulo Bedaque - O estudante brasileiro não tem se saído bem, seja em avaliações internas, como o SAEB, seja em exames internacionais, como o PISA. O SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica do MEC) avalia a capacidade de leitura e de matemática e a maioria de nossos alunos está abaixo do mínimo desejado para seguir adiante em seus estudos. O PISA (concebido pela OCDE), nos posiciona entre os últimos colocados dentre os países participantes. Mas eu sou um professor otimista, acho que o ensino de ciências melhorou nos últimos anos. Abandonamos a comunicação unidirecional, estamos deixando de lado conteúdos sem significado para o aluno, valorizando a experimentação, estamos contextualizando nosso curso e abrindo horizontalmente às discussões importantes para as nossas vidas, procurando ganhar ares multidisciplinares. Infelizmente, apenas uma pequena parte dos professores e das escolas absorveu essas e outras conquistas, mas já percebemos movimentações animadoras, como um vento que não pode ser barrado. Esta é também uma questão que interessa aos nossos colegas de outros países, que vivem problemas semelhantes aos nossos. O mundo globalizado está mostrando que somos mais “parentes” do que imaginávamos.

Edições SM – Como o distanciamento do homem comum do conhecimento científico se reflete na vida real?

Paulo Bedaque - Do mesmo modo que hoje em dia se fala em excluídos digitais, apontando aqueles que não tem acesso às modernas tecnologias de informação e comunicação (TIC), podemos falar também em “excluídos científicos”. Saber pensar cientificamente interessa ao cidadão e não somente ao cientista, tal a invasão da ciência e da tecnologia em nossas vidas. Eu diria que até para votar bem devemos pensar cientificamente. Nossa relação com o mundo natural, no nível de exploração atual, exige que saibamos nos posicionar constantemente sobre as atitudes a serem adotadas. O analfabetismo científico fatalmente carrega o indivíduo para a marginalidade das discussões fundamentais de nosso tempo.

Edições SM – Quais são as outras instâncias de formação que podem aproximar a criança e o adolescente do aprendizado da Ciência? A literatura informativa é um caminho para isso?

Paulo Bedaque - Talvez a habilidade mais importante que um professor deva conseguir com seus alunos hoje em dia seja “aprender a aprender”. Em uma sociedade da aprendizagem como a que vivemos, o aprendizado não termina quando bate o sinal da aula ou quando recebemos nosso diploma. Ao contrário, aprendemos a vida toda. É preciso aprender a aprender para que ganhemos autonomia, já que a escola não pode mais dar conta de trabalhar as informações geradas pela humanidade. Os adolescentes devem ser constantemente estimulados a ler, pesquisar, experimentar para dar vazão a sua curiosidade natural e inseri-los em definitivo na sociedade da aprendizagem.

Edições SM – Como os pais podem trazer a Ciências para dentro de casa ou como podem levar os filhos a um contato gostoso com essa forma de conhecimento?

Paulo Bedaque - Sou daqueles educadores que acreditam no tripé aluno-escola-família para o sucesso da educação. Há uma tendência dos pais de “terceirizarem” a educação de seus filhos, entregando à escola toda a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso que obtiverem, o que é no mínimo, uma irresponsabilidade. Os pais têm que fazer a parte deles, sem a qual o sucesso não será completo. Cabe aos pais incentivar e estimular seus filhos ao aprendizado de ciências: visitem museus, observatórios, planetários, aquários públicos, assinem revistas de divulgação científica, garantam a eles o acesso a livros e à Internet. A expressão-chave é “estimular constantemente”.

Edições SM – Por fim, como vê a chegada de um produto editorial como a Coleção Mão na Ciência, de Edições SM?

Paulo Bedaque - Vejo com grande satisfação. Ela se insere em tudo aquilo que discutimos anteriormente. Como dissemos, é preciso estimular nossos filhos constantemente e nada melhor que uma coleção rica e agradável aos olhos. Certa vez, passeando por Tampa, na Flórida, deparei com uma série de outdoors espalhados pela cidade onde se lia: “O preço que se paga pela educação nunca é tão alto quanto o preço que se paga pela ignorância”. Acho que ainda não absorvemos esta idéia em sua plenitude. Nós todos, pais, professores e pessoas em geral ainda pagamos o alto preço da ignorância.