PAULO CAMARGO: Em sua recente passagem pelo Brasil o pesquisador Howard Gardner disse que as escolas ainda não se deram conta de que reter a atenção de um aluno hoje é muito diferente do que tempos atrás. A seu ver, e segundo suas pesquisas, segundo disse, um jovem das gerações de hoje não é capaz de manter a concentração por mais de 30 minutos. Ou seja, isso deveria impactar, na visão de Gardner, não apenas nas estratégias utilizadas, mas também na duração da aula. Bem, são duas perguntas que lhe faço:

1 – Você concorda ao menos parcialmente com essa tese? Ou seja, no seu entender, as escolas estão ensinando um aluno que não existe mais?

BEDAQUE: Gardner é um grande especialista quando o assunto é a interação dos seres humanos com o mundo.  Seus estudos sobre as inteligências múltiplas mostram isso. Ainda que eu não seja um neurocientista como ele, a prática de sala de aula também é reveladora e tendo a concordar com ele. Ainda que o tempo físico seja o mesmo para todos nós, o tempo psicológico não o é. A estreita relação que temos com o tempo é dinâmica e se altera ao longo de nossas vidas. Cinco minutos para uma criança de 7 anos pode parecer uma eternidade enquanto para um adulto pode passar num piscar de olhos. O passado, o presente e o futuro têm diferentes significados para as pessoas de diferentes idades. Experimentos controlados com crianças das primeiras séries escolares mostraram que, para eles, o presente é mais valioso que o futuro. No experimento eles podiam escolher entre receber um doce de imediato ou dois doces meia hora depois. A maioria deles optava pelo prazer imediato, dispostos a pagar o preço da antecipação do prazer. O mesmo experimento feito com alunos maiores mostrou que, para a maioria deles valia a pena esperar pelos “juros” do investimento.  Dinâmica semelhante, me parece, ocorre também ao longo de nossa história. O tempo psicológico não é o mesmo para um criança de 10 anos hoje e para outra da mesma idade mas que viveu há 100 anos.

As crianças de hoje navegam num mar de informações que se conectam o tempo todo e esse entorno impõe um aprendizado não-linear, como a grande teia que é a Internet. Essa não-linearidade acaba por criar uma certa resistência à antiga organização fordista da escola, minando de certo modo a cumplicidade que deveria haver entre os alunos e ela. Aulas seqüenciais, fixadas por um horário entregue pronto aos alunos não tem como respeitar essa tendência não-linear e não há como prender a atenção dos alunos por muito tempo, ainda que isso fosse possível tempos atrás. Hoje em dia quase todos nós comemos em restaurantes “por quilo”. Tais restaurantes fazem sucesso porque permitem que cada indivíduo monte a sua própria trajetória, permitindo a eles escolher as comidas de que mais gostam e nas quantidades desejadas. Não há linearidade na montagem dos pratos. Já nossos alunos freqüentam escolas que basicamente funcionam como as escolas de 100 anos atrás; eles não têm como escolher a sua própria trajetória, enquanto lá fora o mundo, muitas vezes, oferece essa flexibilidade.

A prática escolar nos mostra que aulas de 1 hora ou mesmo de 50 minutos não são eficientes como antes. Faltam coragem e novos modelos para mudar. Sou daqueles que acredita que mesmo o horário de início das aulas deve ser revisto. As 7 horas da manhã, tanto os alunos como os professores estão sonados e não se pode esperar altos rendimentos. Permita-me ilustrar com um exemplo simples: nossa geração estudou em uma época em que os futebol começava as 8 da noite e no máximo as 10 horas tínhamos que estar na cama dormindo. Hoje, o futebol começa as 10 da noite e as festas mais tarde ainda. Recentemente fui convidado para um aniversário em um barzinho. As 19:30 estava pronto para sair. Para evitar chegar cedo ou tarde demais, liguei para a aniversariante para confirmar o horário de início da festa. Onze horas foi a resposta. Onze horas? Como? É assim. Você acha que algum adolescente hoje em dia entenderia o meu espanto? Certamente não. Certo ou errado, a verdade é que a Terra gira e com ela giram e mudam nossos costumes. E, não sei bem porque, a escola é extremamente refratária a mudanças. Ainda que ela ensine que a Terra gira, ficamos com a impressão de que esta é uma regra que vale apenas para além dos muros da escola. Como educadores, precisamos entender o novo significado que nossos alunos dão para o tempo.

Gosto de ilustrar esse incômodo que sinto com um quadro de 1936 do pintor Magritte, chamado “Elogio da Dialética”. Nele olhamos para o interior de uma casa e encontramos um exterior. Essa é a visão que tenho: quando a escola olha para dentro de si deveria enxergar o mundo externo, mas o que ocorre é que ela cria seu próprio mundo, abstraindo o fato de que o aluno será devolvido um dia para a sociedade.

Assim, quando você me pergunta se as escolas estão ensinando para um aluno que não mais existe, sou tentado a responder que sim, mas esta seria uma resposta muito radical e injusta. O que há é um distanciamento entre o aluno real e o imaginado pela escola que só pode gerar um sistema educacional ineficiente. É preciso fazer a lição de casa, as escolas tem que se espelhar no mundo real.

Magritte03

PAULO CAMARGO: 2 – Você acha que é função da escola ‘cativar’ a atenção do aluno? Ou será que tentar ampliar esse limite mais baixo de concentração não é justamente um papel educativo da escola de hoje?

BEDAQUE: No livro “O filósofo ignorante” Voltaire diz (segundo guardei na memória) que “nenhum filósofo modificou os costumes sequer na rua em que mora, isso porque as pessoas não se guiam pela metafísica e sim pelos hábitos”.  Creio que o mesmo vale para a escola; ela não pode brigar contra os costumes que a sociedade gera. Certamente cabe a ela inserir os alunos nas discussões de nosso tempo, produzindo indivíduos críticos e criativos que contribuam para a evolução da sociedade mas não pode esperar criar ou alterar costumes. Dentro desse contexto, não me parece que a escola tenha força para quebrar as metodologias não-lineares de aprendizagem que o mundo moderno gerou. E nem haveria porque fazê-lo. Assim, se um dos lados tem que aprender como lidar com o baixo poder de concentração de nossos alunos , este lado é a escola que tem que estar atenta às novas demandas da sociedade. Respondendo mais claramente à sua pergunta, eu diria que a escola até pode ser mais atraente, mais antenada no mundo externo e alterar o limite de concentração dos alunos com o poder da sedução, mas o que importa é que ela tem que aprender como ser eficiente com este ou outro limite.

PAULO CAMARGO: 3 – Havia dito que seriam duas questões, mas são três: como as aulas de Ciências, por exemplo, podem ser mais interessantes para o aluno? A questão da experimentação é fundamental?

BEDAQUE: Você tocou num tema interessante e que diz respeito aos estilos de aprendizagem. Sabemos hoje que os indivíduos aprendem de modos distintos. O próprio Gardner contribui para esse entendimento quando estabeleceu as várias manifestações de nossa inteligência. Alguns aprendem com experimentos, outros aprendem construindo equipamentos para fins práticos, outros refletindo sobre o tema e outros ainda elaborando teorias que expliquem os fenômenos. Ainda que cada um de nós tenha um estilo predominante, aprendemos com uma mistura desses estilos.

O que importa é que com experimentação ou sem experimentação as aulas de ciências têm que produzir inclusão científica. Nossas vidas são carregadas de ciência e tecnologia e será assim quer queiramos ou não. Nossos alunos devem deixar a escola “letrados” em ciência, em condições de participar e de entender as grandes discussões de nosso tempo ou a escola estará fracassando. Veja um exemplo: boa parte da humanidade (não sei dizer que porcentagem) acredita que os nascimentos de crianças ocorrem em maior quantidade quando muda a fase da Lua. Mas basta ir à secretaria da escola, levantar as datas de nascimentos dos alunos que já passaram por ali, construir uma tabela com as quantidades de nascimento a cada dia do ano e ao lado anotar a correspondente fase da Lua para descobrir que essa crença não é verdadeira. Quantos outros conceitos errados carregamos por toda a vida e que poderiam ser enterrados com alguns exercícios simples? Quantas outras verdades poderiam ser confirmadas do mesmo modo? Assim, aprender ciências vai muito além de aprender conteúdos. Estamos falando do crescimento das competências para a vida, como bem nos ensina o próprio Gardner que inspirou suas perguntas.